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A professora Flávia Rita fala sobre língua portuguesa e variação de linguagem

15:41 06 Fevereiro em ASSPROM, Noticias
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Saber escrever bem, ter o hábito da leitura, saber diferenciar a linguagem da internet da linguagem usada nas redações, ter habilidade de interpretação de textos são algumas das características de quem domina a língua portuguesa. Em entrevista exclusiva à Assprom, a professora Flávia Rita fala sobre as dificuldades que as pessoas apresentam na hora de escrever e de se comunicar. Confira, a seguir:

Para muitas pessoas, a língua portuguesa é considerada um “bicho de sete cabeças”. Por quê?

Considero dois pilares que fazem com que a língua portuguesa seja complicada para muitos. O primeiro é porque ela é pouco estimulada, principalmente em âmbitos de leitura. O segundo é o fato de, às vezes, os textos trabalhados no ambiente escolar não serem atrativos e nem terem uma convergência com a idade daquele educando. Muitas vezes, o tema tratado não tem uma afinidade com a realidade da pessoa que está trabalhando aquele texto; e aí, os aspectos linguísticos acabam ficando em segundo plano porque não se tornam atraentes e o aprendizado fica menos efetivo.

E o pouco estímulo à leitura também dificulta o aprendizado?

Com certeza. Nós somos um país que tem uma internet ainda muito cara, então, por mais que a gente diga que a leitura foi ampliada por meio das plataformas digitais, sabemos que isso não é uma realidade para todos. A mesma coisa acontece com os livros, que acabam sendo ainda muito caros. Dentro do orçamento familiar, que é sempre mais apertado, não se incluem ferramentas de leitura e aí a língua portuguesa vai ficando distante da realidade do aluno. A prática da escrita também é desestimulada tanto em casa quanto na escola.

Leitura pressupõe habilidade de interpretação de texto. Como desenvolvê-la?

Habilidade em interpretação de texto está diretamente ligada ao nosso acesso aos diversos gêneros textuais. A interpretação depende de três fatores básicos. O primeiro é o conhecimento do campo semântico do texto, ou seja, a pessoa deve ter um mínimo de noção acerca do assunto sobre qual o texto está tratando. O segundo é o conhecimento lexical, ou seja, o acesso ao vocabulário utilizado no texto. Por fim, o terceiro corresponde ao preparo do leitor para entender os mecanismos coesivos, ou seja, as referências que acontecem dentro do texto e as estruturas, macro e micro, nele presentes. Falo, aqui, da capacidade de decodificar a informação de maneira correta, de acordo com o que está expresso no texto.

Saber usar diferentes tipos de linguagem também é outra exigência da vida social. Como podemos desenvolver nosso vocabulário e utilizar o nível de linguagem adequando a diferentes situações?

Primeiro, é preciso reconhecer que a norma culta não é a única variação do português brasileiro. É necessário tanto respeitar a diversidade linguística, pois isso é fundamental dentro do contexto cultural do país, quanto entender que, de acordo com a situação comunicativa, os registros linguísticos oscilam. Então, numa situação mais informal, o falante precisará de um vocabulário menos rebuscado, de sentenças menos complexas e com um nível de inferência maior porque o seu interlocutor, numa situação de intimidade, normalmente, o conhece.
No entanto, numa situação de maior formalidade, é necessário usar um vocabulário mais requintado, construir sentenças mais elaboradas, porque, nesse sentido, o que se observa, no geral, é o domínio linguístico do interlocutor para poder avaliar a qualidade dele em um ambiente profissional, por exemplo. Para isso, é preciso trabalhar a linguagem como uma ferramenta instrucional e social. Ou seja, dentro do ambiente familiar, a linguagem é uma ferramenta social e, no ambiente profissional, o indivíduo precisa decodificar e transmitir instruções de trabalho. Por isso, ler é uma estratégia importante para a ampliação de vocabulário. Quanto mais se desenvolve o hábito da leitura, maior será o vocabulário adquirido. Revisar o texto é uma outra estratégia fundamental nos registros escritos, pois permite a fixação do vocabulário e a identificação dos padrões sintáticos do texto. Já, no registro oral, é preciso estar atento para que a linguagem do dia a dia não contamine as situações de maior formalidade.

Muitas atividades profissionais exigem de nós uma comunicação verbal eficiente e boa redação. O que fazer para alcançar esses objetivos?

Vamos começar pela comunicação verbal eficiente. Às vezes, algumas pessoas acabam sendo vítimas da timidez e têm uma exposição oral mais limitada no ambiente de trabalho ou na vida social. Para poder adquirir a habilidade de se expor verbalmente, a pessoa não pode se privar de situações de interação linguística. Outra dica importante é que o indivíduo pode fazer cursos de oratória, os quais, normalmente, são muito eficazes e podem dar alguma tranquilidade para que ele posicione linguisticamente, pois melhorará a fluidez e determinará um ritmo de fala mais adequado. Em casos específicos de problemas da fala, o indivíduo pode, também, procurar um fonoaudiólogo. Se não houver nenhuma dificuldade mais grave ou específica, acredito que o exercício de se expor oralmente e de aceitar críticas construtivas já será o suficiente para melhorar a comunicação verbal, e, consequentemente, a interação com outros pares sociais. Por isso, é extremamente importante saber como se posicionar verbalmente e, a partir disso, observar o retorno desses pares sociais, de maneira a tentar melhorar essa interação.

Quanto à redação, acredito que existem várias atitudes aptas a contribuir para a escrita de um texto mais claro. Primeiro, é necessário adquirir um vocabulário mais amplo e isso se faz a partir de leitura. Por isso, é necessário ter contato com textos de naturezas variadas e acesso à informação, pois, para se escrever uma redação, a pessoa precisará ter domínio do tema.

Para isso, precisamos pensar em três pilares. O primeiro corresponde ao conhecimento do arcabouço gramatical, o qual inclui o vocabulário, o uso de conectores, as regras básicas de concordância, de sintaxe, de regência, de colocação pronominal, de emprego de pronomes, entre outros. O segundo, por sua vez, equivale ao nível de informatividade do leitor, uma vez que não adianta saber escrever com clareza se o conteúdo não se mostra relevante para quem o lê. Já o terceiro pilar diz respeito à compatibilidade entre a estrutura e o gênero textual solicitado. Ou seja, deve-se ter conhecimento suficiente acerca do gênero produzido de maneira a manifestar domínio de expressão por meio da escrita. Acho que isso é o mais importante.

Vale ressaltar que diversas empresas, como a Fiat, por exemplo, usam a redação como critério de seleção. Normalmente, é cobrado um texto dissertativo ou um relato pessoal como “O que você espera do seu emprego?”. Por isso, é importante ter domínio de estrutura de texto. Saber quais são as diferenças de um artigo de opinião para uma dissertação padrão, quais são as diferenças de um relato pessoal para um texto narrativo imagético, e, assim, por conhecer as estruturas, a pessoa estará mais segura para fazer um bom texto.

A quem diga que a Internet dispensa a prática da escrita. Você considera que as práticas verbais escritas estão fadadas ao uso não padrão da língua?

Não considero que a prática da escrita e da oralidade estejam fadadas ao uso não formal da linguagem. A internet é só mais uma forma de adequação linguística. Naquele ambiente virtual, é muito comum que as pessoas, principalmente as mais jovens, se comuniquem a partir de emojis, símbolos ou façam uso de uma linguagem que seja menos adequada ao português padrão. Desde que a linguagem seja compreensível, eu não acho que isso gere impacto. Corrijo redação todos os anos, quase mil redações por mês, e percebo que não há esse espelhamento entre a linguagem do ambiente virtual e a linguagem que o aluno aplica no texto dissertativo. Por exemplo, ele usa uma linguagem mais codificada dentro do ambiente da internet, mas ele se comunica com linguagens diferentes nas suas interações sociais. Às vezes, ele usa muita gíria com o grupo de amizade e, na hora que vai se dirigir aos pais ou professores, por exemplo, utiliza-se de uma linguagem mais elaborada.

Eventualmente, podem ocorrer casos esporádicos de pessoas que não dominam o processo de linguagem formal, ou seja, de pessoas que, normalmente, não tiveram acesso à instrução formal. Neste caso, pode acontecer de as pessoas utilizarem a mesma variante que elas utilizam no ambiente digital também no ambiente social ou no ambiente de trabalho.
Temos ainda outro problema na educação. Os erros de concordância e de regência que a pessoa comete no meio digital reproduzem-se no texto escrito. O que não acontece é elas se utilizarem de marcas iconográficas exclusivas do ambiente digital, como o “vc”, o “tb”, o “aki” ou outras no texto escrito. Entretanto, a falta de coerência e de coesão que um usuário demonstra na expressão de um texto escrito na internet é a mesma que se pode encontrar, por exemplo, num texto que ele produz para um professor ou para o trabalho. Neste caso, o que ocorre é, realmente, um desconhecimento das estruturas complexas da língua. Isso conseguimos observar até na fala desorganizada da pessoa.

A linguagem e a leitura perpassam as diversas áreas de conhecimentos, mas muitos esbarram nas dificuldades. Como fazer para que o português não seja algo penoso afinal.

O português só vai deixar de ser penoso quando ele inserir práticas de leitura e escritas que estejam condizentes com o público-alvo. Não adianta você pegar um menino de 12 anos, oriundo da periferia, e que nunca teve acesso a textos muito elaborados, e submetê-lo, por exemplo, a um texto que trata de uma pessoa elitizada. O texto que ele está lendo não converge com a realidade em que vive. O que favorece o aprendizado do português é mostrar que existem várias linguagens dentro daquele espaço. É preciso criar oportunidades para o estudante fazer algo que seja significativo para ele. Por exemplo, ele pode produzir um jornal da comunidade em que vive. Porém, deve ser um jornal que fale sobre a realidade daquele grupo social e que tenha sentido para esse mesmo grupo.

O projeto ‘História do Confisco em Quadrinhos’, criado pelo professor de história Moacir Fagundes, da Escola Municipal Anne Frank, no bairro Confisco, na divisa de Belo Horizonte com Contagem, é um ótimo exemplo do que eu disse. Por meio do Projeto, o professor Moacir desenvolveu com alunos do Ensino Fundamental a pesquisa e a produção de uma HQ sobre a história das mulheres, que foram fundadoras do bairro. Então, os alunos produziram um material super-rico e o professor despertou neles o desejo de ler, de escrever e de pesquisar. Neste exemplo, os estudantes tiveram que ler mais, tiveram que se inteirar sobre a realidade local, e o mais importante é que foi gostoso para eles, sabe por quê? Porque eles estavam pesquisando algo que era da própria realidade deles.

Por isso, acredito que romper a barreira do português significa adequar as práticas de linguagem do ambiente escolar ao público que está sendo afetado. Não há como a gente desvincular isso. O aluno só vai gostar de escrever e passar a ter interesse quando se tratar de um assunto que se relacione com uma realidade próxima. E aí, depois, quando o aluno estiver mais maduro, ele vai expandir seus horizontes. Quando o leitor não sente afinidade com determinado assunto, a opção que lhe resta é fechar o livro, deixar a linguagem para outro lado e buscar qualquer outra fonte de conhecimento que tenha mais significado para ele naquele momento.

São frequentes as notícias de que muitos alunos terminam o Ensino Fundamental sem saber ler. Isso realmente acontece?

Infelizmente, acho que isso realmente acontece. A gente sabe que existe essa questão da alfabetização plena no Brasil. Então, existe o analfabetismo funcional e essa é uma questão muito grave e tem que ser trabalhada, pois afeta, principalmente, a escola de base, que é aquela que não investe na qualidade da educação e não dá suporte ao professor para trabalhar adequadamente em sala de aula, e de onde se excluiu a reprovação do processo escolar quase que em sua totalidade. Algumas escolas reprovam, mas excluem, quase sempre, a reprovação do seu contexto escolar, de modo que permitem aos alunos sair do Ensino Médio sem condições de leitura e de escrita plenas. Segundo pesquisas, o analfabetismo funcional no Brasil tem níveis. Existe o analfabetismo funcional rudimentar, que é aquele em que a pessoa conclui os anos de estudo e ela mal consegue escrever o nome, interpretar sentenças muito básicas e não tem condição de associar as ideias que estão dentro de um mesmo parágrafo e nem produzir um parágrafo. Há, também, o analfabetismo intermediário, ou seja, o analfabeto funcional não efetivo. Nesse caso, ele já consegue ler textos mais complexos, mas ainda tem muita dificuldade, por exemplo, na decodificação de livros, na decodificação de um artigo e aí o vocabulário é sempre uma barreira de leitura porque ele não tem tanto acesso. E, por fim, tem-se os alfabetizados plenamente, que são as pessoas que não apresentam este tipo de defasagem, mesmo tendo cursado o Ensino Médio. A nossa precariedade de qualidade da educação básica afeta a qualidade da educação superior, porque, muitas vezes, as pessoas ingressam em universidades sem condição efetiva de leitura e escrita. Como, na faculdade, o aprendizado é muito mais construído e acontece a partir da mediação do professor, o aluno tem que correr atrás, tem de ler e produzir muitos textos, de modo que acaba não dando conta. Por isso, a evasão no Ensino Superior é ampla. Diferente da evasão no Ensino Médio, que, atualmente, é bastante reduzida. A partir de políticas públicas, o Governo conseguiu inserir esse aluno na escola e fazer com que ele saia com um diploma. Entretanto, isso, infelizmente, não garante o pleno domínio da leitura e da escrita.

Como professora especializada em português para concursos, que dica você daria para os jovens que têm planos de investir em uma carreira pública?

Eu diria que o português é a base para qualquer um que vai fazer um concurso público. As carreiras públicas são atraentes, ser servidor é uma missão muito importante porque, afinal de contas, os servidores vão prestar serviços para a população brasileira. Então, eu diria que é necessário, principalmente, o investimento de tempo. Costumo dizer que é menos dinheiro e mais tempo, a pessoa tem que se dedicar mesmo. É necessário um planejamento de médio e de longo prazo. Em geral, para uma pessoa ingressar em um cargo público, atualmente, serão necessários dois a cinco anos, em média, estudando com afinco. Assim, investir em uma carreira pública significa fazer um planejamento de médio e de longo prazo, de modo a conseguir se dedicar plenamente a esse planejamento, a começar pelas disciplinas básicas. Essas são aquelas matérias que são cobradas, normalmente, na maioria dos concursos, tanto nos de nível médio como no de nível superior, como português, direito administrativo, direito constitucional, informática e, em alguns certames, raciocínio lógico.

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