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Em comemoração ao Dia da Consciência Negra, a Assprom realiza entrevista especial

13:00 08 novembro em ASSPROM
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Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós-Doutora em Sociologia pela Universidade de Coimbra e em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Nilma Lino Gomes foi, também, a primeira Reitora negra a comandar uma universidade pública federal e foi Ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, entre 2015 e 2016. Professora Emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Nilma Lino tem atuação marcante na educação e nos debates sobre diversidade e igualdade racial. Confira a entrevista:

JORNAL DA ASSPROM: No dia 20 de novembro, é comemorado o Dia da Consciência Negra. Qual a importância da data? 
Nilma Lino: Mais do que comemorar, o dia 20 de novembro é um marco para que toda a sociedade brasileira reflita sobre a luta e a resistência negras ao longo dos séculos. É por meio dessa luta que o Brasil reconhece, na Constituição Federal de 1988, o racismo como crime inafiançável e imprescritível.
O dia 20 de novembro foi instituído politicamente pelo Movimento Negro na construção da resistência e da denúncia ao racismo e em contraposição às interpretações idílicas e despolitizadas a respeito do 13 de maio. É dia de relembrar Zumbi dos Palmares, Dandara e Acotirene como lideranças negras, exemplos da luta pela libertação. Essa data construída politicamente, hoje, é feriado em vários municípios e está presente no calendário escolar, de acordo com o artigo 79B da LDB.

JA: O que podemos entender por consciência negra?
NL:
É a compreensão política do papel insurgente, libertador e emancipatório da população negra no Brasil e dos nossos ancestrais africanos trazidos à força para o Brasil. Consciência negra é adotar uma posição política na luta contra o racismo. É reconhecer a força, a herança, a resistência e a luta do povo negro, no Brasil. E é assumir politicamente e de maneira afirmativa a identidade negra.

JA: Acompanhando sua trajetória é possível perceber que a senhora desde sempre luta pela igualdade racial e de diretos. De onde surgiu essa vontade e determinação em lutar por essas causas?
NL:
Da minha ancestralidade e, em especial, da minha vivência familiar, pois meu pai era um líder comunitário e aprendi com ele a não aceitar injustiças. E quanto mais fui construindo uma consciência política do que significa ser mulher negra numa sociedade racista, quanto mais fui percebendo as formas ardilosas do racismo se enraizar na educação, na saúde, no trabalho, enfim, na sociedade, mais aguçou em mim a vontade e a determinação de lutar contra o racismo e toda e qualquer forma de discriminação.

JA: Como foi ser a primeira Reitora negra do país a comandar uma Universidade Federal? Quais foram as dificuldades encontradas?
NL:
Foi uma honra. Sempre afirmo e repito que foi um cargo que assumi sabendo que eu representava um coletivo sociorracial com uma história de luta por liberdade e resistência à opressão. As dificuldades e os desafios foram ajudar a construir uma universidade nova, no interior do Ceará, com a proposta de realizar a cooperação Sul-Sul com os países de língua portuguesa, em especial, os africanos. Foi muito desafiador conduzir uma gestão com uma proposta de integração internacional que articulava dimensões regionais, raciais, geográficas, pedagógicas muito distintas das outras universidades públicas.

JA: E como foi ser Ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos?
NL: 
Foi também uma honra. Era um cargo no qual eu representava vários coletivos que lutam contra as desigualdades e opressão. O ministério era um desafio de construir, na prática, políticas públicas que articulassem as questões de gênero, raciais e de direitos humanos.
Por mais que tenham pontos comuns nem sempre essas questões estão interconectadas no exercício efetivo da política púbica. Era desafiador pensar e conduzir um ministério com o desafio de construir ações interconectadas que contemplassem todas essas dimensões. Infelizmente, com o golpe de 2016, não pude concluir a gestão.

JA: Qual reflexão a senhora faz de sua trajetória política?
NL:
Uma trajetória que não começou comigo. Sou herdeira de muitas mulheres e homens negros guerreiros que vieram antes de mim. E sempre fui atenta para aprender os ensinamentos que me deixaram. Ser mulher negra, no Brasil, e construir uma trajetória política é também ter a consciência do racismo estrutural e perceber que, embora quantitativamente, nós, mulheres negras, sejamos um número significativo em nosso país, ainda somos pouquíssimas na vida política. E poucas de nós conseguem desenvolver uma trajetória política. A minha trajetória me mostra que essa “ausência” tem que ser desnaturalizada. É preciso entender que ela é produzida pelas/nas relações de poder. Não podemos mais achar normal ou atribuir a baixa presença de mulheres negras na vida política ao interesse ou escolhas individuais.

JA: A senhora costuma dizer que o racismo no Brasil é ambíguo. Pode explicar o porquê dessa afirmação?
NL:
É o tipo de racismo que se afirma através da sua própria negação. Quanto mais se nega o racismo, no Brasil, mais ele se enraíza e se fortalece.

JA: A senhora considera que o Brasil ainda pode ser considerado um país racista e preconceituoso?
NL:
Sim, basta analisar os dados sobre o genocídio da juventude negra, o feminicídio negro, as desigualdades entre negros e brancos no mercado de trabalho, a luta pela inserção de jovens negros no ensino superior, a qual só foi conseguida porque hoje temos ações afirmativas, fruto da luta do movimento negro. Além disso, basta observar o cotidiano do país, as redes sociais, os ataques racistas aos jogadores negros pelas torcidas de futebol. Enfim, infelizmente, caso de racismo é o que mais acontece em nosso país e em todos os níveis. Por isso precisamos de leis que criminalizem o racismo e de políticas de igualdade racial que façam justiça à população negra e tragam mais equidade ao Brasil.

JA: Como a senhora vê as conquistas do movimento negro e, mais especificamente, do movimento de mulheres negras, nos últimos anos no Brasil?
NL: Se hoje existem leis que criminalizam o racismo, se existem políticas de ações afirmativas e o reconhecimento de que o Brasil é um país racista isso é fruto da ação do movimento negro e de mulheres negras. Se, atualmente, falamos da intersecção entre raça, classe e gênero na produção teórica e nos desafiamos a realizá-la na prática e nas políticas públicas, é porque o movimento de mulheres negras resistiu e tensionou a ciência e a sociedade. Se temos o feminismo negro e toda uma discussão sobre o importante lugar da mulher negra desde a época da escravidão até os nossos dias, como uma pilar de força, de identidade e de resistência é porque o movimento de mulheres negras existe.

JA: Dentre os diversos pontos que compõem a temática dos direitos da população negra, a violência contra a juventude é uma triste realidade e questão de primeira ordem a ser discutida. Segundo dados do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança divulgado em junho de 2019, 75% das vítimas de homicídio no país são negras e metade das mortes de jovens de 15 a 19 anos é causada por assassinato. O Atlas da Violência também indica que as vítimas são moradores de comunidades vulneráveis, com pouca escolaridade. Quais medidas a senhora verifica que devem ser tomadas para alterar este quadro? Mais campanhas de sensibilização pelo fim da violência contra a juventude negra seria uma boa alternativa?
NL: Falar sobre juventude negra, no Brasil, é reconhecer que o racismo estrutural e a desigualdade social estão matando os nossos jovens. Há um projeto de extermínio em curso. Mudar essa situação implica repensar toda a política de segurança pública, de cultura, de lazer, de educação voltada para a juventude pobre, periférica e, na sua maioria, negra. Essa situação só pode ser alterada se compreendermos que o racismo é a macrocausa da violência que assola a juventude negra. E que toda e qualquer ação que vise garantir o direito à vida dos nossos jovens negros passa, necessariamente, pela construção de uma política antirracista.
As campanhas de sensibilização, na minha opinião, não mudam nada. Diante do racismo é preciso agir. Não basta apenas sensibilizar.

JA: E, para você, o que ainda deve ser vencido na sociedade? 
NL: Vivemos momentos de um projeto de extrema direita que tenta se enraizar no Brasil. Temos visto, desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, uma série de retrocessos aos direitos conquistados pelo povo brasileiro. A partir de 2018, assistimos mais retrocessos com reformas neoliberais e conservadoras e uma polarização política e ideológica estimulada por determinados setores políticos, midiáticos e fundamentalistas religiosos. A democracia brasileira, na minha opinião, está em risco. E quando a democracia está em risco todos sofrem, principalmente, os setores em situação de maior desigualdade e exclusão. Por isso, os ataques à democracia implicam grandes dificuldades para todos, sobretudo, o povo negro.

JA: Que mensagem a senhora gostaria de deixar em relação ao Dia da Consciência Negra?
NL: Nunca devemos desistir de construir uma sociedade verdadeiramente democrática e antirracista. A nossa força é ancestral, vem de longe e ultrapassa gerações.

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