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“Museu é um lugar onde a gente guarda a nossa história”

“Museu é um lugar onde a gente guarda a nossa história”

18:13 19 outubro em ASSPROM, Noticias
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Na noite do dia 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional pegou fogo e perdeu quase todo o acervo de milhões de peças. Foi uma tragédia para todo país. A Assprom, entidade que sempre promove, junto aos seus jovens e adolescentes, a cultura e a educação, entrevistou o professor doutor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET/MG), James William Goodwin Junior, para falar sobre a importância cultural dos museus para a construção da sociedade.

Além disso, vale ressaltar que a Assprom sempre foi incentivadora das visitações aos museus, levando os seus jovens em vários deles como Museu do Judiciário Mineiro e Museu das Minas e dos Metais.

Confira, abaixo, a opinião do especialista sobre diversos temas:

Um país é uma construção histórica
“Um país é uma comunidade, em que as pessoas se reconhecem como pertencentes. País não é uma coisa natural, ele é uma construção histórica. Nenhum país brotou do nada. Todos são resultados de um processo histórico, que pode ser mais ou menos violento, que pode ter sido construído por meio de mais acordo ou de mais batalhas. Ora, se o país é o resultado de um processo histórico, esse processo precisa ser pensado, mostrado, criticado, discutido até para que possamos entender: como foi que a gente chegou até aqui? E o que faremos com isso?”

Museu é o lugar onde guardamos nossa história
“As pessoas pensam que museu é um depósito das coisas antigas que fomos acumulando com o passar do tempo. Ou, às vezes, fazem até um certo elogio, como se fosse uma relíquia ou uma coisa que a gente tem que preservar, porém intocada. A expressão ‘peça de museu’ representa bem isso. Museu não é isso. Museu é um lugar onde a gente guarda a nossa história, a história de quem está aqui hoje. É um local que nos faz pensar o que nós somos. Um museu é uma porta, uma janela, uma interface para uma visão de mundo mais ampla.”

Museus abrem possibilidade de enxergar o mundo
“Os museus abrem para a gente possibilidades de enxergar o mundo de outras formas. Isso por si só já uma riqueza imensa. Eles ajudam a compreender a forma como lemos nosso passado e como pensamos sobre todas as coisas, desde os eventos e situações até o uso de objetos. Tudo isso, que chamamos de cultura material, ajuda a entender quem somos nós. Por exemplo, no acervo do Museu do Diamante (Dimantina/MG), existem ferros que as mulheres negras e mestiças usavam para alisar o cabelo, era a ‘chapinha’ do século XVIII. Com a problematização criada a partir de um simples objeto, podemos pensar o passado e o futuro ou maneira como as pessoas se organizam em sociedade.”

Interesse pelos museus
“O problema é que no Brasil temos a ideia de que ir ao museu é coisa de elite. Tanto é assim, que a maior parte dos brasileiros foi ao museu em excursões escolares e nunca mais voltou. O museu não é esse espaço fechado onde só entra ‘gente culta’, ele é um espaço que faz parte de uma vivência da população. À medida que o museu é integrado à vida das pessoas, o interesse aumenta. O Museu Nacional (Rio de Janeiro/RJ), assim como o Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora/MG), é exemplo disso. Nesses museus, têm jardins e espaço para as pessoas ficarem, brincarem, passarem o dia. É uma forma de integrar o museu à convivência da comunidade. Outro exemplo de integração é a proposta do Museu de Artes e Ofícios (Belo Horizonte/MG), um museu sobre o trabalho que fica numa estação de metrô, onde os trabalhadores passam. Então, cria-se a possibilidade do diálogo. As pessoas passam ali com pressa, indo ou vindo do trabalho, mas elas sabem que o museu existe e, em algum momento, o interesse pode ser despertado. Há diversas possibilidades de se provocar esse interesse, mas, fundamentalmente, é preciso tirar da cabeça das pessoas que museu é lugar só de ‘gente culta’. Ele é lugar de toda a comunidade, o patrimônio dos museus é de todos.”

Formas de integração
“A integração depende de como o próprio museu se apresenta para seu público. É preciso trabalhar outras maneiras de ler a história e descobrir quem é o público do museu e como conversar com esse público. Gosto de citar o exemplo do Museu Imperial (Petrópolis/RJ), que tem como principal público crianças de diversas escolas e, por ser muito tradicional, criou uma mascote para atrair o público infantil. Placas com o dragãozinho (referência ao dragão, que é símbolo da Casa de Bragança) foram colocadas ao longo de diversos itens do acervo, numa linguagem acessível às crianças e na altura do olhar delas, como se o próprio dragãozinho estivesse falando para elas o que tem no museu, criando, assim, mais interatividade e interesse.”

Tecnologia no museu
A tecnologia pode ser muito bem utilizada e pode ser legal. É uma forma divertida e interessante de trabalhar. Cito de novo o Museu Imperial (Petrópolis/RJ), que faz projeções holográficas de Dom Pedro e outros personagens históricos, à noite, nas paredes do prédio. Outro exemplo é o Museu do Futebol (São Paulo/SP), onde há uma projeção de um gol de Pelé em 3D. Aqui, em Belo Horizonte, no Memorial de Minas Gerais, na Praça da Liberdade, os ‘fantasmas’, personagens da Inconfidência, conversam um com outro a partir dos quadros. Então, você está ali sentado, observando os quadros e ouvindo a conversa e você aprende sobre o movimento da Inconfidência Mineira. É uma forma divertida e interessante de se montar uma exposição em um museu. Há muitas formas de se fornecer, aos visitantes, possibilidades de interpretação e de interação. Mas um museu não é um parque temático. Um museu nunca vai conseguir competir com a Disney, com a Netflix ou com a internet. Museus proporcionam outro tipo de entretenimento. Ele faz com que as pessoas saiam do lugar-comum em que elas estão.”

Semana dos museus
“Na nossa sociedade atual, é preciso criar alguns eventos para chamar a atenção. Mas, não dá para viver só de eventos ou de grandes exposições, justamente porque museu não é parque temático. A Semana dos Museus é uma iniciativa que funciona, pois já estamos na 12° edição. É um momento em que todos os museus estão juntos e a mídia dá atenção, neste ano mais ainda (por causa do incêndio no Museu Nacional). Mas, algumas pessoas dizem que ‘ah, mas a gente não tem visto números monstruosos nas visitas’. Criamos uma lógica que só é sucesso se chegar na casa dos milhões de visitantes. Porém, muitos museus não suportam milhões de visitantes, eles seriam destruídos. Por exemplo, no Museu dos Brinquedos (Belo Horizonte/MG), não dá para encher de gente lá dentro, porque não cabe e a exposição é montada de um jeito que os visitantes precisam ter uma certa mobilidade.”

Investimento, sociedade e preservação
“Cultura exige investimento de tempo, de dinheiro e de amor. É preciso lembrar que museu não foi feito para dar lucro, museu foi feito pra dar cultura, prazer, alegria e conhecimento. A sociedade quer investir? A sociedade quer se dar ao prazer de ter esses lugares nos quais ela pode se ver e se pensar? Então, precisa-se abrir uma discussão mais séria e discutir significa ouvir o que todas as pessoas têm a dizer, o que pode não ser aquilo que os intelectuais queiram ouvir. ‘Ah, mas as pessoas estão falando bobagens’, isso não pode ser colocado de modo excludente, pois muitas vezes, essa ‘bobagem’ pode ter uma leitura que faz algum sentido. E é preciso discutir o museu como política cultural. A sociedade tem que arcar com isso também. Quer ser um país civilizado? País civilizado investe dinheiro em museus, cultura e história. O modelo de país civilizado ocidental, do qual o Brasil faz parte tem que ter esse tipo de instituição.”

Museu Nacional
‘Para mim, um dos mais marcantes testemunhos sobre a importância do Museu Nacional para a população do Rio de Janeiro, foi feito pelo comandante dos bombeiros, durante entrevista, na noite do incêndio. Ele começou falando que estava muito emocionado, pois o pai o levava lá, quando ele era criança. Ou seja, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, a casa do Imperador, que estava pegando fogo, fazia parte das memórias afetivas dele e de toda a população. Havia uma relação afetiva das pessoas com aquele museu. Então, devemos discutir com a comunidade como ela pode se apropriar dos museus. Um museu pode se abrir para uma festa, um congado, ser palco de um evento festivo da sociedade e, assim, as pessoas perceberão que esse lugar pertence a todos nós. Esse museu é meu, pois ele conta a história de minha cidade, do meu estado, do meu país, conta a história de todos nós. Então, a única forma de você preservar é fazer com que as pessoas se apropriem desse espaço, desse acervo. Aquilo que as pessoas não veem valor, tende a ser destruído e perdido, porque se não tem valor para a sociedade, ela não vai investir.”

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